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28/07/2009 - Pausa para o Cafezinho

Crise diminui crescimento no setor e estimula, no mundo rico, hábito de beber em casa.

No Brasil, o consumo de café tradicional segue em alta e o dos especiais não caiu, afirma Starbucks, múlti que continuou a investir no país.

MAURO ZAFALON
DA REDAÇÃO

Abalado com crise econômica global, o setor de café vive um instante de pausa. Não há queda no consumo, mas uma perda de ritmo de crescimento e uma transferência de consumidores das cafeterias especiais para os próprios lares, onde o gasto é menor.
Essa regra não vale para todos. A maior transferência ocorre nos países ricos, os mais afetados pela crise e onde houve maior perda de renda. O Brasil caminha na direção inversa, e parte dos consumidores continua trocando o coador pelas máquinas e os cafés especiais.
"A situação está muito difícil. Com a crise, o consumo em bares, restaurantes e hotéis caiu 15% na Itália", diz Giuseppe Lavazza, vice-presidente da italiana Lavazza, uma das líderes na Europa. Andrea Illy, da também italiana Illycaffè, confirma a queda, mas avalia que "é um fenômeno passageiro".
O consumidor volta às compras de café nos supermercados e migra para o consumo caseiro nos países ricos porque o custo é bem menor, diz Gabriel Silva Luján, da Federação dos Cafeicultores da Colômbia.
No mundo, uma xícara de café fora de casa custa US$ 2,10 em média -bem acima do US$ 0,35 a US$ 0,50 gasto quando preparado em casa, diz ele.
A transferência de consumo de café para o lar aumenta também nos Estados Unidos, mas esse fenômeno não depende apenas da crise, diz Sydney Marques de Paiva, diretor-presidente da Café Bom Dia , empresa que tem uma unidade de produção em Seattle (EUA).
O mesmo ocorre na Itália, onde o consumo no lar, mesmo que tenha se acentuado na crise, é um fenômeno que já vem ocorrendo devido às boas condições para se preparar um café de qualidade em casa, diz Roberto Ricci, dono da Sant'Eustachio, tradicional cafeteria há 70 anos no centro de Roma.
O Japão não ficou imune à crise. As cafeterias do Café do Centro registraram leve queda de movimento no país. A empresa concorda com Illy, de que se trata de fenômeno passageiro, e, por isso, mantém os investimentos programados para a Ásia, afirma Rodrigo Branco Peres, diretor da Café.
Ricci, que além da cafeteria tem uma torrefadora à lenha e revende café para consumo em casa, diz que, quanto melhor for o café consumido no lar, mais os consumidores vão procurar as cafeterias quando estiverem fora de casa. Na cafeteria, "o preparo é uma arte", diz.

Velocidade menor
Na verdade, o setor de café já tinha se acostumado a uma confortável velocidade de crescimento no consumo mundial nos últimos anos. Veio a crise e "os 2% ou 2,5% esperados podem ficar em 1%", diz Carlos Brando, especialista no setor.
Mas 1% não é um número desprezível, diz Guilherme Braga, do Cecafé, órgão dos exportadores. "Será mais 1,3 milhão de sacas." O consumo mundial anual gira próximo de 130 milhões de sacas.
As empresas brasileiras ainda buscam os efeitos da crise no país, mas o consumo nacional de café tradicional cresceu 6% de janeiro a abril, "uma taxa surpreendente, principalmente por ser verão", diz Nathan Herszkowicz, da Abic (associação da indústria do setor).
E, quando se trata de cafés especiais, também "não há crise", diz Marco Suplicy, da Suplicy Cafés Especiais. "O frio ajuda, e nosso Natal [em referência ao melhor período do ano para o café] avança muito bem."
O estágio "mais maduro" da economia brasileira, a descoberta do café gourmet arábica pelo grande público e os preços acessíveis são os grandes sustentáculos do consumo de cafés especiais no país, que não caiu. A avaliação é de Ricardo Carvalheira, presidente da Starbucks Coffee no Brasil, empresa que não pisou no freio nos investimentos por aqui, ao contrário da matriz, que faz ajustes.
Martín Pereyra Rozas, diretor-geral da Nespresso Brasil, diz que "as nuvens negras do final de 2008" não amedrontaram e a empresa elevou os investimentos. Há dois anos no Brasil, a Nespresso obteve o maior crescimento da história da companhia em um país.
Para Rozas, o mercado está muito bom e os cafés especiais não são uma novidade para o consumidor brasileiro, mas "uma evolução". Em um país onde 94% das pessoas consomem café, está havendo a transferência do café tradicional para os especiais, diz ele.
Ana Cláudia Bestetti, do Café do Porto, de Porto Alegre, chegou a ficar preocupada em fevereiro, mas o consumo de maio já superava em 12% o de 2008.
Se depender do interesse de empresas e de novos profissionais que buscam a especialização em fazer um bom café, o consumo está garantido. Edgard Bressani, da Ipanema Coffees e da Associação Brasileira de Café e Barista, diz que o número de empresas associadas saltou de 15 para 100 em um ano, e as cafeterias especiais agora avançam para o interior.

Cápsula traz padrão de barista para dentro de casa
GITÂNIO FORTES
DA REDAÇÃO

O hábito mais sofisticado no consumo doméstico de café no Brasil foi clonado da Europa, dos Estados Unidos e do Japão.
Está nas cápsulas de porções individuais de expresso e em suas cafeteiras praticamente à prova de erro humano.
Para preparar uma xícara, basta ler as instruções da máquina, colocar a cápsula no compartimento correto e apertar um botão. Não é preciso ser barista para obter um café considerado muito bom.
Três marcas se destacam nesse mercado atualmente no Brasil -Nespresso, Illy e Nescafé Dolce Gusto. "As três são fortes e endossam o produto, que encanta pela praticidade", diz a consultora Eliana Relvas.
A Nespresso foi a pioneira no Brasil, há dois anos e meio. Em 2008, foi a vez da Illy. Em fevereiro deste ano, a Dolce Gusto desembarcou com suas cápsulas, oferecendo também produtos à base de chocolate e leite.
Martín Pereyra Rozas, diretor da Nespresso Brasil, não revela os números da companhia no país. Mas define a evolução do mercado de luxo como "terreno fértil", que impulsiona as vendas de expresso gourmet. Em 2008, foi comercializado o triplo de máquinas que o total de 2007. A empresa espera para 2009 o dobro de 2008.

Potencial
Estimativas apontam que o mercado potencial para as cafeteiras e suas cápsulas chega a 2 milhões de pessoas, praticamente "1% da população brasileira", diz Lauro Bastos, diretor da ACN, distribuidora exclusiva da Illycaffè no Brasil.
No mercado apenas desde fevereiro deste ano, a Nestlé afirma que as vendas da marca Nescafé Dolce Gusto superam as expectativas. Para a empresa, que também não especifica os números dela no segmento, a tendência é que haja consolidação ainda maior no mercado de cafés de alta qualidade.
A depender da demanda, a Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), que avalia cafeteiras elétricas e aparelhos convencionais para preparar o expresso em casa, no futuro deve incluir as máquinas com cápsula em sua programação, afirma o pesquisador Dino Lameira.
Com manutenção adequada, os equipamentos podem durar uma década, diz Bastos, da ACN, distribuidora da Illycaffè.
Em tempo: se você quiser comprar apenas uma cafeteira e experimentar as cápsulas de outras marcas, isso não é possível. A máquina de cada uma só processa o respectivo produto. Exclusividade é tudo.

Fonte: Folha de S.Paulo

 

 

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